Esgrima Histórica



Antiguidade

A mais antiga reprodução de uma competição esportiva de esgrima é um relevo existente no templo de Madinat Habu, construído por Ramses III por volta de 1190 AC.   Não há dúvida que os homens não estão duelando: estão claramente usando máscaras , as pontas das armas estão protegidas, há um juiz de cada lado e os pontos estão registrados numa folha de papiro.

Se levarmos em consideração que as primeiras espadas surgiram entre 1500 e 1100 AC – em Creta Minoana e na Bretanha Céltica – verificamos que muito rapidamente tornaram-se objetos de uso esportivo.

De modo geral é atribuído a Ninus, rei da Assíria, o desenvolvimento da esgrima como esporte. Os persas, babilônios, chineses, japoneses e romanos, usavam suas espadas para treinos formais marciais, somente raramente esgrimiam esportivamente.

Os romanos, diferentemente dos gregos, prezavam a esgrima de espadas, nota-se um treinamento militar organizado por Flavius Vegetius Renatus e um treinamento civil para gladiadores. Aliás, os gladiadores recebiam melhor treinamento que os soldados, o próprio Júlio César mantinha uma escola particular para gladiadores na Campânia.

Idade Média

Durante toda a Idade Média até o inicio do século XVI não se encontram tratados com métodos organizados para o aprendizado de esgrima de espada, que era uma arma de ataque, paradas somente com escudo ou armadura, caso não fosse possível esquivar-se do golpe do adversário.

O mais antigo trabalho importante de técnica esgrima é um manuscrito alemão que se encontra registrado na Royal Armouries em Leeds sob o número “I.33”. Nesse trabalho é representado um monge que dá aulas a um aluno com espada e broquel, são trinta e duas folhas com desenhos e breves instruções em latim. Após esse trabalho aparecem o tratado atribuído a Johannes Liechtenauer (1389) ,famoso mestre de Nuremberg , e o de Hans Talhoffer (1443).

A invenção de imprensa (Johannes Gutenberg, 1450) trouxe uma grande quantidade de livros sobre esgrima para o mercado inclusive ilustrados por artistas de alto nível como Albrecht Dürer.


No século XVI os princípios básicos da esgrima moderna européia foram estabelecidos pelos italianos que sem dúvida foram os lideres teóricos do momento.

É interessante observar que, paradoxalmente, o desenvolvimento da esgrima deveu-se justamente ao progresso das armas de fogo. Com o advento das armas de fogo paulatinamente aboliu-se o uso da armadura, ao mesmo tempo adotou-se a espada para uso civil. Daí a espada ropera, espada para ser usada com roupa civil, agora já não mais como arma exclusivamente de ataque mas como arma completa, de ataque e defesa.

A espada tornou-se assim uma arma de grande valor, que permitia a um individuo defender-se e atacar, dai o grande interesse em aprender a utiliza-la através do conhecimento da esgrima.

Spada da Lato

Um dos mais antigos trabalhos desse período, que sobrevive até hoje, é do mestre bolonhes Achille Marozzo que publicou suaOpera Nova pela primeira vez em 1536 . Interessante notar que ainda não se falava de paradas o tratado ensinava como desviar a lâmina do adversário com sua própria espada ou com uma adaga ou algum tipo de escudo. O tratado abrangia armas para combate a cavalo e a pé, com ilustrações dos golpes e guardas que poderiam ser efetuados com espada, espada e adaga, espada e escudo, espada e capa, espada e broquel, espada de duas mãos e várias armas de haste. A espada usada por Marozzo era a chamada spada da lato utilizada tanto para uso civil como para a guerra, era uma espada de dois gumes e sua esgrima propunha 50% de golpes de ponta e 50% de golpes de corte. Os golpes eram fortíssimos pois eram dados com todo o peso do corpo em direção ao movimento. As guardas eram várias, tanto de defesa quanto de ataque e tinham nomes particulares. O a fundo ainda não figura na esgrima de Marozzo, os golpes eram dados caminhando ou com num passo à frente como na esgrima atual.

Em 1553, em Roma, foi publicado o Trattato di scientia d’arme de Camillo Agrippa. Camillo Agrippa era na verdade um amador de esgrima, profissionalmente era um arquiteto, engenheiro e matemático. Era amigo de Michelangelo e conhecido pelo seu constantemente envolvimento em brigas de rua e nas tabernas. Falamos de Agrippa principalmente para chamar a atenção ao seu tratado que simplifica sobremaneira as guardas e que já nos faz parecerem familiares, ele as chama de primeira (prima), segunda (seconda), terceira (terza) e quarta (quarta). Na sua esgrima já figura um quase meio a fundo.

Rapieira

A spada da lato foi a espada antecessora da rapieira (Port.) , rapier (Ingl.) ou rapière (Fran.). Na verdade a spada da lato no decorrer do tempo tornou-se uma rapieira por efeito da valorização da ponta versus corte e sua esgrima particular. Ainda hoje há muita discussão e desentendimento acerca da diferença entre uma espada e uma rapieira, principalmente porque as pessoas não partem de pressupostos corretos. Por exemplo:
não se caracteriza uma espada pela sua guarda, mas pela sua lâmina, que em última análise determina seu uso;
há muitas e vários tipos de lâminas de espadas montadas em guardas de rapieira. Assim aquela rapieira que aparece em tal quadro de guerra na verdade não era uma rapieira mas uma espada. Rapieiras são armas civis de duelo, todas as tentativas em utilizá-las em combates militares foram desastrosas.

A grande autoridade em armas antigas Ewart Oakesshott em seu magistral livro sobre armas do Renascimento (European Weapons and Armour from the Renaissance to the Industrial Revolution) a nosso ver, resolveu definitivamente o problema quando afirma:

“A única forma para distinguir uma rapieira normal de uma espada normal, é pelo seu “jeito” e como você a sente em sua mão. Se você sente que pode decepar o braço de um homem com ela, então é uma espada. Caso contrário é uma rapieira.”

Os tipos básicos desenvolvidos entre 1480 e 1520, permaneceram em uso até 1630, quando apareceram novos tipos chamados de transição, desenhos experimentais que revelavam o questionamento do espírito científico daquele século, portal de ingresso no mundo moderno.
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