Duelos


Senhor de Jarnac vs. Senhor de La Châtaigneraie - 10 de julho de 1547 



O duelo entre Guy de Chabot, senhor de Jarnac, e François de Vivonne, senhor de La Châtaigneraie, foi um dos últimos duelos judiciais na França, e iniciou a moda dos duelos por honra. 

Quando menino La Châtaigneraie serviu como pagem de Francisco I, que frequentemente se dirigia a ele como “meu afilhado” e ganhou as boas graças do dauphin , herdeiro do trono, que seria Henrique II.

Quando jovem La Châtaigneraie era aficionado a todas as artes militares. Estudou esgrima em Roma, com o celebre mestre Patenostrier e em Milão com Tappe, e foi considerado como um dos melhores esgrimistas de seu tempo. Com sua constituição vigorosa ele também era um excelente lutador e venceu vários duelos agarrando seu oponente jogando-o no chão e matando-o com sua adaga. Ele serviu com distinção em guerras na Itália e na Holanda e era em geral visto como corajoso e generoso mas propenso a um excessivo orgulho e fanfarrão. Na época do duelo tinha 26 anos.

Seu companheiro cortesão, Jarnac também era um favorito de Francisco. Ele era um bom soldado, mas longe da reputação e bravura de La Chatâigneraie. Ele era 10 anos mais velho e mais alto, mas não tão forte e de uma natureza mais reservada e religiosa. A riqueza de sua família não era nem próxima da de La Châtaigneraie; mas após a morte de sua mãe seu pai casou-se com uma nobre rica e bonita, que proporcionou a Jarnac uma generosa pensão. As finanças de Jarnac eram fonte de curiosidade na corte e em 1545 o delfim perguntou como ele mantinha esse nível, quando era bem sabido que condições de sua família eram modestas. Jarnac explicou a fonte de seus fundos mas boatos logo se espalharam que Jarnac estava prestando favores sexuais à sua madrasta em troca de sua pensão. Mortificado Jarnac declarou que quem fosse que tenha dito isso era um “vilão maligno e mentiroso perverso”. O rumor, parece ter sido originado pelo delfim e sua mulher, o que criou uma situação insustentável. O delfim devido à sua posição não podia duelar pessoalmente com Jarnac.

La Châtaigneraie, que por muito tempo tinha sido amigo de Jarnac, viu uma oportunidade de se distinguir na corte dizendo-se responsável pelo rumor e chegou até a insistir que Jarnac havia-lhe contado o caso privadamente e que era verdade.

Era de interesse dos dois homens resolver o assunto da maneira mais pública possível e eles pediram a Francisco I permissão para bater-se num duelo judicial, um procedimento que havia caído de moda, mas que continuava como opção legal. Contudo o rei não somente recusou, como proibiu os dois homens de lutarem definitivamente e ameaçou-os com severa punição caso não obedecessem.

Francisco morreu na primavera de 1547 e assim que Henrique II subiu ao trono, os dois cortesãos apelaram a ele por uma permissão de combaterem. Ele permitiu isso “para a verificação de suas honras” e o duelo para se realizar em pouco mais de um mês.

Era popularmente assumido que La Châtaigneraie venceria fácil; dizia-se que ele temia seu oponente “não mais do que um leão teme um cachorro”.

Jarnac estava determinado a cercar-se de todas as oportunidades que surgissem , e assim passou o mês anterior ao duelo assistindo diariamente à missa e treinando com o mestre italiano Caize (as vezes pronunciado Caiza ou Caizo).

Como parte desafiada, Jarnac tinha a escolha das armas fosse para combater à cavalo ou a pé. Como desafiante La Châtaigneraie tinha que aceitar os termos de Jarnac a menos que os juízes do combate aceitassem suas objeções. Jarnac primeiro pensou em combater à cavalo e enviou ao seu oponente uma longa lista de tipos de cavalos, selas, armas e armadura que se fariam necessários para provocar o protesto de La Châtaigneraie “esse homem quer testar as duas coisas meu valor e minha bolsa”.

Contudo, aconselhado por Caize, Jarnac finalmente decidiu-se a combater à pé. Cada um seria armado com uma longa e pesada espada de dois gumes, de tipo antigo. Cada homem teria uma espada extra, de reserva, em caso de quebra de lâmina e também estaria armado com duas adagas: uma longa presa a sua coxa direita e uma curta colocada em sua bota esquerda. Também carregariam um escudo e usariam um “morion” (um elmo aberto com aba e cimeira), um “corselet” (que é uma armadura cobrindo o corpo e os quadris, luvas de aço e um “brassard” especial (armadura para o braço direito). Este último item era invulgar: era muitas vezes descrito como tendo dobradiças muito rígidas, limitando o movimento do braço e às vezes como não possuindo nenhuma dobradiça, mantendo o braço rígido.

Todas essas especificações foram calculadas para favorecer Jarnac. Ele especificou grandes escudos assumindo que estaria da defensiva a grande maioria do combate, e as duas adagas para que fosse capaz de pegar qualquer uma delas se fosse desarmado e jogado ao chão. Numa recente campanha militar La Châtaigneraie havia sido ferido no braço direito e não estava totalmente recuperado, assim a pesada espada e luvas tinham a intenção de sugar sua energia. Principalmente, contudo, o “brassard “ o impediam de agarrar seu oponente com os braços .

O duelo ocorreu em 10 de julho, num campo próximo ao castelo em Saint Germain-em-Laye, num espaço de 24 por 40 jardas, espaço essa cercado por uma barricada dupla. O rei e sua corte assistiam de um balcão ao centro, e uma multidão de gente do povo estava presente, muitos deles canalhas de Paris que tinham sido reprimidos ao empurrar as barreiras.

Nos fundos do campo cada um dos combatentes tinha uma tenda para suas comodidades. Na sua La Châtaigneraie montou um conjunto de mesas e um festim suntuoso servido em preciosa prata para a celebração da vitória que ele cofiava fosse dele.

Para começar as formalidades, La Châtaigneraie apresentou-se ao rei, desfilou cerimoniosamente em volta do perímetro do campo com seu séquito, pendurou seu brasão de família numa estaca, do lado direito do rei e retirou-se para sua tenda. Jarnac então fez o mesmo, pendurando seu brasão de família do lado esquerdo do rei.

Jarnac enviou seu escudeiro ao pavilhão de La Châtaigneraie com as armas e armadura que seriam usados no assalto. Os segundos de La Châtaignerai prontamente concordaram com tudo, exceto o “brassard”. Após uma longa e acalorada discussão, o assunto foi submetido aos juízes para uma solução. Eles optaram por Jarnac.

É dito que La Châtaigneraie sentindo dor quando o escudeiro de Jarnac fixava o “brassard” no seu braço direito jurou que o faria pagar por isso. “Após você ter terminado o combate com meu senhor," respondeu o escudeiro, “eu terei pouco medo de seu juramento”.

Às sete da tarde os dois homens se dirigiram para a arena. Cada um por sua vez foram até o padre parado junto ao rei e juraram que sua causa era justa e que tanto ele como suas armas não estavam protegidos por qualquer mágica ou feitiço.

O arauto então declarou o início da luta.

La Châtaigneraie caminhou rápida e agressivamente em direção a Jarnac, mantendo sua espada alta e pronta para golpear. Jarnac avançou lenta e cautelosamente, atrás de seu escudo,empunhando sua espada como preparando-se para uma defesa. Assim que chegaram dentro da medida , La Châtaignerai atacou a cabeça de Jarnac com um golpe de corte, Jarnac parou o golpe com seu escudo, abaixou-se e acertou uma pontada na parte interna do seu joelho esquerdo. Antes que La Châtaignerai pudesse se recuperar, Jarnac cortou o tendão de sua coxa com um golpe de corte (draw cut) desferido com o falso gume. Esta era o golpe que ele havia praticado com Cuize durante o mês anterior ao combate e que ficou conhecido como o coupe-de-Jarnac que originalmente referia-se a um golpe efetivo , não esperado, mas que mais tarde veio a implicar em furtivo ou clandestino.

La Châtaignerai cambaleou, largou a espada e caiu. A multidão vociferou perplexa vendo o grande espadachim despachado tão rapidamente depois caiu em silêncio.

O vitorioso num duelo judicial pode tratar do vencido em uma de três maneiras: ele pode mata-lo, após o que o carrasco peduraria seu corpo numa forca para desonra-lo; ele pode poupar sua vida em troca de uma confissão que sua acusação era falsa; ou ele pode entrega-lo ao rei que irá restaurar a honra do vitorioso e perdoando ou punindo o vencido a seu critério.

Jarnac pediu a La Châtaignerai para confessar sua mentira, mas ele negou e tentava desesperadamente levantar-se para continuar o combate.

Jarnac saudou o rei com sua espada ensanguentada ajoelhou-se perante ele e disse, “Majestade,espero que me considere um homem honrado; entrego La Châtegneraie ao senhor. Foi nossa juventude que causou este problema. Não deixe quem qualquer acusação caia sobre ele ou sua família por causa de sua ofensa, por isso eu entrego-o ao senhor”.

O rei relutando em aceitar o desfecho do duelo sentava-se silenciosamente com um rosto de pedra.

Jarnac dirigiu-se outra vez para La Châtaignerai e rogou que se entregasse, mas o outro tendo recuperado sua espada, com um supremo esforço consegui erguer-se num joelho e tento se atirar sobre seu inimigo. Jarnac deu um passo atrás e disse “Não se mova Vivonne ou eu te mato”. “Mata-me então” rugiu La Châtaignerai caindo outra vez no chão. Jarnac tirou a espada da La Châtaignerai de seu alcance como também uma adaga que havia caído de sua bainha. Entregou essas armas aos arautos e outra vez implorou ao rei que proclamasse sua honra.

Como o rei permanecia inflexível, a situação se encontrava num impasse. Um dos juízes chamou a atenção do rei que La Châtaignerai estava seriamente ferido e que se ele morresse no campo Jarnac seria obrigado a levar seu corpo ao carrasco para enforcamento. Realizando que sua continua recusa em aceitar a derrota de seu campeão poderia levar a uma maior desgraça o rei abrandou-se dizendo friamente, “Você cumpriu seu dever Jarnac e sua honra será restaurada”

O juiz anunciou que era direito do vencedor de ser escoltado para fora do campo por seus seguidores, precedidos por arautos, ao som de tambores e cornetas. Jarnac sabendo que não era o momento para paradas de triunfais, declinou a oferta dizendo ao rei “Pertencer ao senhor é tudo que desejo”. O rei então o abraçou e declarou “Você lutou como Cesar e falou como Aristóteles”.

La Châtaignerai foi levado para fora do campo e seus ferimentos tratados e enfaixados. Ele poderia ter-se recuperado, mas estava tão mortificado pela sua derrota que arrancou os curativos e morreu de hemorragia. Diz-se que recusou a presença de um padre e morreu blasfemando. Quanto ao banquete da vitória, foi devorado pela canalha de Paris que invadiu sua tenda e teve que ser dispersa por guardas com alabardas. O enorme serviço de baixelas de prata emprestado por sete ou oito famílias da nobreza , desapareceu na confusão.

Henrique II jurou que nunca mais sancionaria um julgamento por combate. Contudo ele apenas conseguiu transformar o duelo em uma prática furtiva, pois o tão comentado duelo, inspirou a mania de duelar entre a nobreza. 

COMPILADO POR HERMES E. MARTINELLI EM 24/X/12
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