Spada da Lato





A Spada da Lato* foi muito propriamente chamada pelo Mestre especialista na arma Marco Rubboli de a “espada de uma nova era”. Herdeira direta da espada medieval de cavaleiro, de uma mão só (Ingl. Arming sword), foi a espada característica do meado de século XVI.

Sem dúvida sua esgrima constituiu a base da esgrima moderna e seu desenvolvimento, nos leva diretamente à espada mais bela e romântica da esgrima ocidental que é a rapieira (Ital. Spada a Stricia, em Ingl. Rapier).

Assim, a spada da lato, arma tanto civil como militar, participou de todos os eventos militares do Renascimento italiano. Como sua antecessora medieval, a espada de cavaleiro de uma mão só - “uma arma muito útil, para cortes e pontadas, ao mesmo tempo forte e rápida” - ela é também uma espada de dois gumes e ponta, sendo seu peso em média 1,2 kg, contudo há exemplares de 1 kg e de até 1,5 kg e o comprimento da lâmina também é muito variável. Os modelos mais antigos apresentam uma simples guarda em cruz, uma empunhadura e um pomo. Nos modelos mais recentes a guarda torna-se elaborada com anéis de proteção para a mão e dedos e a lâmina mais leve e estreita, sendo que isso se deve ao uso cada vez mais civil da mesma.


E é essa última versão da spada da lato que mais nos interessa, pois ela conviveu sem dúvida com as primeiras rapieiras e muitos combates sem dúvida aconteceram com essas diferentes armas em oposição. Assim é muito importante para o estudante da esgrima Renascentista saber manejar essa espada, pelo menos os princípios fundamentais, como também saber opor-se a ela com a rapieira.

É muito importante enfatizar, para o bom entendimento, que os Tratados italianos mais importantes, dos Mestres da escola bolonhesa, Achille Marozzo e Antonio Manciolino e mais o Tratado Anônimo Bolonhês, eram tratados universais; instruções para o aprendizado do uso da maioria das espadas tanto civis como militares.

O mesmo aconteceu na França onde podemos citar o Tratado do Mestre Sainct Didier e na Inglaterra, onde entre outros, ensinaram essas armas os Mestres George Silver e Swetnam.

Interessante notar que o Tratado de 1570 de Giacomo di Grassi tratava claramente de espada, contudo, quando foi traduzido para o inglês o termo usado por Di Grassi – spada - foi traduzido por – rapier.

Assim temos um Tratado de rapier que trata de esgrima de espada, ou seja, uma boa contribuição para a confusão.

Da mesma forma, na Alemanha, o Tratado do Mestre Joachim Mayer de 1570 trata da esgrima de espada sob o titulo de Rapier. Essa esgrima não fazia parte da esgrima tradicional alemã, foi uma introdução mais moderna, baseada nos Mestres italianos Marozzo e di Grassi e nada tem a haver com Rapier.

Contudo devemos considerar que provavelmente a confusão é coisa da nossa época, pois naquele tempo, na Inglaterra e na França todas as espadas que não fossem uma “bastarda” (de mão e meia) ou uma grande espada de duas mãos eram chamadas de “rapier” ou “rapière”. Já na Itália qualquer espada, com exceção da de duas mãos, era chamada simplesmente de “spada”.

As espadas da época podiam ser utilizadas sozinhas ou acompanhadas de escudos, exclusivamente de uso militar, como a rotella (Ital.) e o targone (Ital.) e no caso da spada da lato outros acompanhantes de mão esquerda de uso tipicamente de rua ou de duelo, como a adaga e a capa, que no futuro permanecerão na esgrima de rapieira.

Contudo a Spada da Lato encontra seu principal aliado no broquel pequeno ou na targa (Ital.) quadrada e onduladaem vez de redonda como o broquel. Este tipo de escudo fabricado em madeira e metal é

Utilizado na mão desarmada, com o óbvio objetivo de desviar golpes, deixando a mão armada livre para qualquer ação. O broquel tem origem muito antiga, foi muito utilizado na Idade Média, inclusive pelos arqueiros ingleses.

Durante o Renascimento teve grande sucesso porque oferecia boa proteção sem ser muito incomodo, era transportado simplesmente pendurado na cintura. Foi muito utilizado por militares fora do campo de batalha e por civis como viajantes, peregrinos e outros que por sua atividade necessitassem de proteção.

Sob o ponto de vista técnico notamos certas ações que permanecem na esgrima moderna, principalmente de sabre, já bem desenvolvidas na esgrima da escola bolonhesa, como a parada e resposta, o golpe em tempo e o desengajamento.Já o movimento dos pés é diferente, mais circular do que linear, principalmente para as técnicas utilizando armas na mão esquerda.

É muito importante notar a postura do esgrimista, que prioriza a idéia da defesa e não do ataque, pensando na própria segurança em primeiro lugar e em atingir o adversário em segundo lugar. Provavelmente foi na Inglaterra que a esgrima dessas espadas principalmente as chamadas backswords, tão prezadas pelos ingleses, permaneceu por mais tempo, até o século XVII avançado, quando no resto da Europa ensinava-se somente a rapieira.

A esgrima começa a ser uma atividade mais dirigida para duelo, excluindo a de uso militar e de defesa pessoal na rua.

(*) A nomenclatura italiana escolhida para o titulo, Spada da Lato, deve-se ao fato que a nosso ver os melhores Tratados dessa arma foram os italianos, e são os adotados pela nossa Academia.
Vale a pena notar que o uso da nomenclatura Spada da Lato ou Sidesword é uma convenção relativamente recente. Foi adotada pelos curadores dos museus mais ou menos há duzentos anos, com o objetivo de diferenciar essas espadas de corte (de uso militar e civil), do meado de século XV ao final do século XVI, das rapieiras (somente de uso civil), e orientadas para estocadas, ou seja, golpes de ponta.


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